O que faz um bom neurolingüista?
Há algum tempo atrás, alguém
me fez uma pergunta muito interessante, sobre a qual eu tenho
pensado muito, desde então: "Qual é a diferença
entre alguém que usa a PNL num grau médio de habilidade
e alguém que a usa num grau elevado?" Acho que existem
muitas repostas a essa pergunta, e tenho algumas idéias
para tentar respondê-la.
Acho que alguém que usa os métodos
da PNL excepcionalmente bem tem muitas maneiras de agregar todas
as habilidades e técnicas dentro de uma simples estrutura
abrangente de compreensão. Uma estrutura universal fornece
base sólida para coletar informações e responder
criativamente, mesmo quando um determinado método ou técnica
não funcionar, e outros se tornarem ineficazes ou confusos.
Dividindo e Unindo
Tem-me sido muito útil pensar naquilo que
faço em termos de "divisão" ou "junção".
Divisão é o processo de separar dois aspectos de
uma experiência, que estejam juntos. Por exemplo, no processo
de fobia, os sentimentos desagradáveis são separados
da memória visual da experiência traumática.
No processo do perdão, certas idéias ou significados
que a pessoa tem sobre o perdão (por exemplo o perdão
destina-se a outra pessoa, ou perdoar significa desculpar o ato
prejudicial) precisam ser separados da experiência do perdão
antes que a pessoa esteja disposta a perdoar.
Unir é o processo de juntar dois elementos
que foram separados, na experiência da pessoa. Em qualquer
processo de integração de âncoras, como a
"mudança da história pessoal", duas experiências
diferentes são unidas no mesmo momento do tempo.
Naturalmente, em muitas intervenções,
a divisão e a junção ocorrem simultaneamente.
Na ressignificação de conteúdos, um significado
antigo é separado da experiência ao mesmo tempo em
que uma nova significação lhe é atribuída:
Todas as nossas experiências têm uma estrutura complexa,
formada por camadas sobrepostas de semelhanças (união)
e diferenças (divisão) percebidas. Ao mudar uma
experiência, estamos sempre mudando a percepção
ou a compreensão da semelhança ou diferença,
e isso vai resultar numa mudança de resposta.
Se você acha que lhe seria útil aprender
como pensar nesses termos universais, será de grande auxílio
pegar um exemplo de qualquer método de PNL que você
conheça e examiná-lo cuidadosamente para determinar
, em cada passo, o que está sendo dividido e o que está
sendo unido. Quanto mais você o fizer, tanto mais isso se
tornará uma maneira automática de pensar, que pode
orientar o seu trabalho.
Seqüência
Outra forma abrangente de compreensão é
que toda nossa experiência é uma seqüência
interminável de pequenos eventos, um conduzindo ao outro
numa sucessão rápida. Na verdade, não temos
"experiências" ou "problemas" ou "soluções",
o que temos é um estado de experiência, problemas
ou soluções. Quando alguém diz que tem um
"problema" de "relacionamento", está
isolando um pequeno evento dentro de uma seqüência,
e pensando nele como se fosse uma "coisa" fixa. Quando
respondo que compreendo haver algum aspecto do qual ele não
gosta em sua relação com essa pessoa, minhas palavras
são um convite para começar a pensar nisso como
um processo em mudança, mais do que em algo fixo ou imutável.
Quando alguém pensa num "problema",
geralmente o representa como uma imagem imóvel. Pedir-lhe,
simplesmente, que essa imagem se transforme em um filme do evento
pode representar uma intervenção profunda, porque
isso vai recuperar a seqüência completa da qual o problema
é apenas uma pequena parte. O filme dará muito mais
informações do que a imagem parada e, freqüentemente,
essas informações são muito úteis
para se chegar a uma solução. E, uma vez que a imagem
do filme já está em movimento e mudando, é
muito mais fácil introduzir mudanças adicionais
úteis do que se fosse uma imagem fixa.
Combinando-se a idéia de fazer uma união
com a seqüência, nós percebemos que dois eventos
podem ser unidos simultaneamente, ou seqüencialmente, um
após o outro. Então, quando queremos mudar a experiência
problemática de alguém para algo com mais recursos
e mais útil, temos três escolhas fundamentais a respeito
da combinação do "estado do problema"
e do "estado de recursos"... Nós podemos combiná-los
simultaneamente em algum momento do tempo, ou podemos dar recursos
seqüencialmente, imediatamente antes ou imediatamente depois
que o problema ocorre.
Cada escolha terá um resultado um pouco diferente,
que é difícil descrever em palavras, mas pode ser
facilmente experimentado. No método básico conhecido
como "mudança da história pessoal", nós
ancoramos um estado de problema e um estado de recurso. Dependendo
de nosso tempo e do gatilho das âncoras, nós podemos
combinar os estados simultaneamente, criando um estado de integração,
ou podemos criar uma seqüência na qual o estado de
recurso preceda ou siga o estado de problema.
Se o recurso for dado posteriormente ao estado de
problema, a pessoa tem que experimentar primeiro o desconforto
do estado de problema, e depois a solução possibilitada
pelo estado de recurso. Embora isso funcione, não é
muito elegante, e deixa a pessoa experimentando repetidamente
um breve desconforto.
No entanto, se o estado de recurso preceder a situação
difícil, a pessoa nem sequer vai experimentá-la
como um problema. Na verdade, isto é o que a maioria de
nós experimenta milhares de vezes por dia, sem mesmo notá-lo.
Todos os dias nós enfrentamos uma miríade de tarefas,
desde procurar as chaves do carro na bolsa até falar com
alguém ao telefone, ou ler um artigo como este. À
medida que tivermos recursos comportamentais robustos para lidar
com essas situações, não as consideraremos
como problemas. Mas se fôssemos ainda criancinhas, muitas
dessas tarefas representariam problemas insuperáveis. A
construção de recursos disponíveis antes
que ocorra um problema potencial é muito mais criativa
e agradável do que o uso dos recursos disponíveis
para remediar as coisas depois que o problema ocorre e, é
claro, essa é a razão porque planejamos com antecedência
e temos instituições educacionais, etc., para nos
prepararem para os desafios da vida.
Qualificadores Cognitivos
Alegremente, John McWhirter descreveu um exemplo
lingüístico fascinante e sutil de como a mente pode
ser ajustada previamente para responder de uma maneira particular
que, tristemente, outros não notaram antes. Um "qualificador
cognitivo" é um advérbio de "comentário"
que aparece no início de uma sentença ou frase referente
a um estado cognitivo ou emocional, como "alegremente"
ou "tristemente" na sentença anterior. O qualificador
cognitivo prepara a mente para responder de uma maneira específica
a qualquer palavra que apareça depois dele.
A fim de experimentar esse efeito, pense numa sentença
descritiva ordinária como: "A árvore verde
está sendo iluminada pela luz do sol" ou "Eu
estou sentada diante da escrivaninha" e imagine-se dizendo
essa sentença para si próprio...
Agora, imagine-se dizendo exatamente a mesma sentença,
mas precedida pela palavra "tristemente", e note como
isso muda sua experiência...
Depois diga a mesma sentença, mas precedida
pela palavra "alegremente" e, novamente, preste atenção
à sua experiência...
Os qualificadores cognitivos dirigem nossa mente
para pensar nos aspectos da experiência especificados pelo
tipo de qualificador usado.
Imagine como seria sua esposa se você iniciasse
cada sentença, e cada pensamento, com a palavra "infelizmente"
ou "lamentavelmente." Essa é uma maneira muito
eficaz para entrar em depressão, e algumas pessoas realmente
fazem isso! Ao contrário, imagine como seria sua esposa
se cada sentença ou frase fosse precedida por "felizmente"
ou "afortunadamente."
É compreensível que possamos nos sentir
incongruentes sobre o uso do qualificador "alegremente"
em alguns eventos desagradáveis, mas felizmente existe
um recurso alternativo. Tanto "tristemente" como "alegremente"
se referem a estados emocionais, e a maioria das emoções
são avaliadoras, lidam com o agradável e o desagradável,
o positivo ou o negativo. Esses qualificadores de avaliação
às vezes parecerão inadequados para o conteúdo
de um determinado pensamento ou sentença.
Existe um conjunto de estados cognitivos/emocionais
bastante diferentes, e que não apresentam aspectos negativos
ou desagradáveis.
Curiosamente, todos eles se situam ao redor de um
estado de interesse, curiosidade, atenção ou compreensão:
"interessantemente", "curiosamente", "surpreendentemente",
"compreensivelmente", etc. Algo desagradável
pode ser tão interessante quanto algo agradável
o estado de interesse ou fascinação, em si
mesmo, é sempre positivo e agradável. Você
provavelmente nunca ouviu ninguém queixar-se por ser curioso.
"Ah, eu tive uma grande curiosidade ontem foi horrível!"
Uma vez que esses qualificadores cognitivos milagrosamente
nunca têm estados negativos a eles associados, eles realmente
são recursos universais, que podem ser usados com qualquer
experiência. E, uma vez que um estado de curiosidade ou
interesse é um excelente estado de recursos para o aprendizado
e a mudança, essa espécie de qualificador cognitivo
é um estado maravilhoso a ser usado no início, para
que se possa compreender e processar uma dificuldade.
Por exemplo, pense em alguma experiência em
sua vida que você descreveria como um problema ou dificuldade,
e forme uma sentença simples para descrevê-la, como:
"Eu odeio quando as pessoas não cumprem suas promessas."
Diga essa sentença para si próprio, e note como
você a representa internamente...
Agora, diga a mesma sentença para si próprio,
mas precedida da palavra "Interessantemente", ou "Curiosamente",
ou "Compreensivelmente", e preste atenção
a como essa palavra muda sua experiência...
A maioria das pessoas experimenta mudanças
sutis e profundas, porque a atenção é retirada
de quão desagradável é o problema, e dirigida
para o interesse e curiosidade sobre como ele acontece, ou como
pode ser compreendido um estado de prontidão e ânsia
de aprender. Imagine como seria sua vida se todas as frases e
pensamentos começassem com "Interessantemente"
ou "Compreensivelmente".
Isso pode ser muito interessante quando usado como
um "retrocesso" com o cliente. Quando um cliente descreve
um problema, você pode retornar sua afirmação,
começando com "compreensivelmente", ou outro
qualificador que tenha a ver com curiosidade e aprendizado, e
observe as mudanças não verbais que indicam que
ele está pensando sobre o assunto de uma maneira mais tranqüila
e útil.
Um aspecto muito importante dos qualificadores cognitivos
é que eles criam um mundo universal e partilhado, um significado
que abrange a nós dois. É muito diferente de dizer
"Eu acho isso interessante", ou "Você acha
isso interessante?", casos em que há uma separação
ou diferença aparente entre nós. Quando eu digo
"interessantemente", essa expressão estabelece
um significado que simplesmente existe e é tido como normal,
e que nós dois experimentamos juntos, sem a separação
entre eu e o outro que muitas pessoas muitas vezes sentem. Isso
transcende o rapport, porque o rapport pressupões a diferença
que ele interliga.
Surpreendentemente, por meio de um poderoso estado
de interesse e curiosidade, muitos "problemas" simplesmente
se esvaem à medida que a atenção se desvia
de quão desagradável são esses problemas
para simplesmente aprender de que maneira eles existem e funcionam,
e o que podemos fazer para mudá-los. Mesmo quando eles
não desaparecem, é um ponto muito mais útil
por onde começar a trabalhar em direção à
compreensão e à solução. Interessantemente,
a idéia de que tudo na vida é uma escola na qual
temos lições a aprender é muito antiga e
particularmente centrada em tradições espirituais.
Não sei se isso é verdade ou não, mas é
uma reorientação muito poderosa para nossa vida
como um todo, que a torna muito mais fácil e agradável,
tanto para nós mesmos como para os outros.
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* Steve Andreas, com sua esposa Connirae, tem estudado,
ensinado e desenvolvido a PNL Programação
Neurolingüística por mais de vinte anos. Eles são
autores ou editores de diversos livros e artigos de PNL. Endereço:
NLP Comprehensive, 12567 W. Cedar Dr., Suite 102, Lakewood Co
80228.